Uma última palavra do dia para ti. Meu enorme palhaço triste, meu magnífico amigo. Costumava pensar que a incondicional amizade, que sempre nos uniu, era fruto de uma imensa sorte ou das boas graças do criador. Hoje sei que foi fruto de uma loucura cristalina dos ainda persistentes sonhos, mancos como nós, mas teimosos e genuínos, tal qual o mesmo número de dentes que cuspimos ao sol, mas também desse coração aberto que tens, sem que saibas muito bens que tens, das risotas cúmplices que aqui e ali soubemos guardar e, dessa imensa tristeza. Essa tristeza que nos assalta às vezes e às vezes quase nos derrota e faz cair para trás.
Hoje, novamente caí para trás. Desamparado e exangue, quase até dentro do chão. Mas lá estavas tu, calmo e célere. Não para me amparares a queda, como eu pudesse esperar, mas para te rires; para que juntos pudéssemos rir acerca da ancestral arte de saber cair. Deixando afinal antever que, se calhar, Deus sempre tenha algo a ver com o assunto.

O paradoxo da loucura é efectivamente já não ter medo de mim.
