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Uma última palavra do dia para ti. Meu enorme palhaço triste, meu magnífico amigo. Costumava pensar que a incondicional amizade, que sempre nos uniu,  era fruto de uma imensa sorte ou das boas graças do criador. Hoje sei que foi fruto de uma loucura cristalina dos ainda persistentes sonhos, mancos como nós, mas teimosos e genuínos, tal qual o mesmo número de dentes que cuspimos ao sol, mas também desse coração aberto que tens, sem que saibas muito bens que tens, das risotas cúmplices que aqui e ali soubemos guardar e, dessa imensa tristeza. Essa tristeza que nos assalta às vezes e às vezes quase nos derrota e faz cair para trás.

 

Hoje, novamente caí para trás.  Desamparado e exangue, quase até dentro do chão. Mas lá estavas tu, calmo e célere. Não para me amparares a queda, como eu pudesse esperar, mas para te rires; para que juntos pudéssemos rir acerca da ancestral arte de saber cair. Deixando afinal antever que, se calhar, Deus sempre tenha algo a ver com o assunto.

Estou à espera do momento certo. Lívido. Tenho medo de mim próprio e das consequências da insolação. Do doce adormecer de quem só espera, debaixo do sol. Não vale a pena sonhar com a frescura do bosque, com o descanso merecido daqueles que trabalharam, que fizeram, que podem contar. Tudo o que possa dizer em minha defesa apenas ajudará o sol a descer no horizonte. Para mais um dia. Para mais uma noite. Mas eu mereço, eu sei que mereço cada polegada de lividez na minha fronte e mereço também esta ânsia que me trespassa agora, como um susto de um amigo. Que é só isso, um susto.

 

 Como me sinto afortunado. Completo na minha espera, humano. Daqui a pouco, não amanhã que é tão longe, entrarei pela minha própria porta de casa para a rua, para o dia, para o futuro. Quase que temo acordar esse momento antes da hora, tão frágil que me parece daqui a vida, as coisas completas em si e na ordem das outras coisas. Vou viver ! Com todas as letras da palavra e as infinitas combinações encerradas em si, VOU VIVER! Aqui, neste instante, debaixo do sol de sempre, encontro a protecção em mim próprio. A minha própria fonte assiste-me e intensifica a minha sede. Faz-me viver desde já. Perfeito. Imperfeito. Completo.

Lembro a palavra de Eugénio de Andrade, “ Tudo o que vivi foi para chegar a um verso! ”…

 Aqui, sentado a esta página imperfeita do livro da vida, começo de reencontrar o tão só inacabado verso. Tudo o que vivi desprende-se naturalmente da árvore, mesmo sem que as cores  sejam ainda as da estação mais plena. A verdade mais exacta com certeza já nasceu algures, ou não fosse Natal e um menino exíguo de salários e pensões de aleitamento e subsídios de férias e talvez isenções fiscais, foi à muito tempo preparado para ter vários empregos, apesar de ser menino. Carpinteiro, pescador, politico – equivalente de Messias – mártir e, pasme-se até, pastor. Mas também padeiro, e guardador de rebanhos, Mestre e salvador de uma humanidade inteira, mesmo agora que cada um de nós tão só espera um pretexto, para de palma em riste, de braço bem levantado, o aclamar nas miríades de Novas-Jerusaléns  terrenas.

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 O meu hálito é ainda adocicado pela proximidade da quadra. Inspirado pelos perfumes de humildade e amor que pairam pelas Aldeias-Presépio, tento fixar um pequeno instante da minha vida em que compreendi a necessidade de sermos todos um pouco melhores …do que efectivamente seremos amanhã.

Repuxado até ti sou uma prega da tua veste, um ornamento esparso e simétrico como os meus irmãos ornamentos. Pois ainda bem que sou simétrico. Mas, aquela magnífica prega mais acima, essa… Bem aquela magnífica e assimétrica prega torna a tua veste especial, mais limpa porque erradia de outro modo a luz, mais densa, mais forte, mais… Simétrica na assimetria. Mais.

 

Hoje estive na velha rua onde cresci. Joguei à bola com os putos e levei uma bolada que me fez chorar. De saudades. Dos putos e dos dias e do sangue sempre à boca. Hoje fui criança outra vez, disse palavrões e escutei-os sem receio de partir os ouvidos. Sujei a roupa. Fui feliz.

himmelO paradoxo da loucura é efectivamente já não ter medo de mim.

Não ter de me assustar quando olho para dentro.

 

Poder contemplar os meus próprios ossos, sem medo que a alma os leve a passear.

 

 Admirável Mundo Velho, tu és a terra de todas as perversões e a terra de todos os tédios. Fora das tuas portas habitam milhentas estátuas de sal que te olham curiosas. Do alto das tuas torres podem ouvir-se distintamente todas as línguas da intemporal Babel ou tão só o fervilhar acidulado do silêncio, mais duro que giz, raspando o quadro negro das nossas esperanças pequeninas.

 

Meu Admirável Mundo Velho. Nem sequer pareces estar cansado do lixo tóxico das nossas cidadelas fortificadas, das vendas agressivas por telefone, da publicidade enganosa, do entupimento do sistema legal, da doença crónica dos serviços de saúde, da falta de educação dos teus filhos, que tão bom nome dariam ao género humano não fosse faltar-lhes tempo para a simpatia espontânea. É muito engraçado como te podemos ver caminhar orgulhoso, descendo os dias a coxear. E é bom sentir que ainda te perfumas e dás valor às tuas vestes nupciais, porque doutro modo seria difícil ver os grupos de activistas, que se debatem por ti, a serem ignorados e tomados por maluquinhos sem nada de melhor para fazer, do que cuspir verdades para os vidros assépticos da sociedade de consumo.

 

Meu Admirável Mundo Novo !(#)

Anoiteceu-me aos olhos. Sem estradas ardilosas por onde seguir, por não haver estradas e, também por não haver horizonte. Porque essa é a essência do horizonte. Por seguir a essência de si próprio.

Olho para cima com o que me resta de olhar. As nuvens permitidas. O soçobrar cáustico das estrelas. O meu próprio Céu também entorpecido. Anoiteceu-me aos olhos, pois que é consumado o presente. O pretérito mais que perfeito do verbo.

Nada sei, mas ainda não sei isso.


coltrane01

Caleideiscopicamente.

Assim como

quem se despe, depois de ter fugido.

Depois que a vaca tussa.

Anoiteceu-me aos olhos


Como se a cegueira chegasse,

Batendo, batendo à porta

E distraída encontrasse,

o sonho

Que já foi meu…

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