Os meus olhos estão ainda arregalados. Durmo por fora porque à noite vamos para a cama, comportados. Mas, cá dentro, o rio que o filme acordou em mim, como à muito nada me acordava, esse rio de correntes fundas, está vivo como a excése de Sorriso aos pés da escada.#

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Cai-o do Céu sobre o amor da minha vida. Desprego as lágrimas na chuva e pinto o heróico cavalo dos meus sonhos com motivos ausentes de ódio. Grito a plenos pulmões na solidão do meu quarto, dormindo em silêncio, a Principesa amada, a criança construída do riso , o jogo perfeito de todos os carros de guerra. O tamanho natural do nevoeiro fazendo ver todos os ossos descarnados.

Quase a levantar-se do chão

O escritor adocicou o pensamento

E olhou em volta como uma criança,

pequena

que começa a andar.

Adivinhas visuais

Perspectivas

Dádivas espontâneas

Quedas repetidas.

Atrás da amurada, do próprio navio emergido, cumprimentei a manhã. Em verdade a transmutação da minha fé amanheceu-me os olhos e o que vejo agora é só o complemento de mim. O que discordo e o que sou guerreiam-se pela melhor luz. O batimento dos remos na água não diz mais do que aquilo que há para dizer. A alma de navegante espera, querendo tão só chegar.

Um porto firme e confortante, antes de partir novamente.

Meu dulcíssimo amigo das horas azedas… Pensar que, de uma vida inteira, mais das vezes só nos aproximamos de ti em desespero, revertendo para ti olhos suplicantes e mãos cansadas, cancros e fígados estragados, almas partidas sem concerto. Meu amigo, convido-te a vires agora, neste momento em que nada me apoquenta; vem partilhar este momento de pura alegria, de comunhão. Vem celebrar meu amigo! – Desculpa se é já tarde, mas enfim, pelo menos não estou a chorar e nada quero para mim e para o mundo. Quero tão só ter-te aqui, com todo o apetite que tragas para cear. Quero perfumar-te os pés com o melhor perfume que tiver, e olha que de bom grado os enxugaria também com os cabelos, como o fez aquela outra mulher, mas entendes que sou careca.

Como uma premonição lembrei-me de ti. Meu Deus ! Tenho a mesa posta a um canto do coração e a música transfigura-me a face demoradamente. Demoradamente. MARANA THA !

iboys Soluço as lágrimas que te secaram, cada um dos teus gestos imóveis, as horas que esperaste de brincar.

Minha criança ficcionada, como é impossível que existas, lábios de ódio a abrirem-se cerrados, doridos de dizer; olhos mortos; seios rasos; feridas cheias sem vontade de morrer.

É noite. Escura embora como um rosto. Aprasadamente Humberto foi-se embora, ou pior nunca sequer aqui esteve. Estou fechado dentro da minha caixa em forma de coração(#). Sei que há-de haver lá em cima, no sótão, forças que me permitirão sair, mas não agora. Agora vou ficar aqui muito quietinho a ver a madrugada chegar.

Tenho os olhos semiabertos com medo de uma noite pior e de uma pior madrugada que se lhe siga, mas que se lixe, também tenho tido medo de tudo…

Cigano de muitos mundos

Mil nações de eternidade

E mil momentos que tarde,

Seriam se fossem meus…

energygovernanceA um canto e sob a réstia possível da fresta da tua porta, agacho-me ao silêncio perpetuado, combinando os sons de velhas maquinetas fantasmas com o adocicado aroma dos teus penedos de olhar.

 

Fico de luto. Fico de luto ao acabar por pensar em mim. Ali, estupidamente sentado a adiar o verdadeiro marulhar dos teus passos, aquele que te afasta audível, perfeitamente centrada em minha boca, chegada que é a hora do Adeus.

Minha reverenda dor… Minha indiscreta amiga de espasmos lancinantes. Como aprendi a esperar-te e a apreciar a espera, sorvendo a vida em golfadas secas até te  antever à porta. Sentir-te chegar é já, em verdade, uma verdadeira presença dos teus gestos, dos teus rituais sem tempo, que por ninguém esperam, preparados ou não… E como gostas de chegar sem seres anunciada, de mansinho, quase de maneira fina, subtil, dissimulada como um estilete numa bainha de Rainha.

Pese os dias em que te atrasas e então chegas avassaladora, voltando sobre ti todas as atenções, todas as conversas, todas as esperanças e, porque não, todo o desejo.

 

Meu dulcíssimo amor, minha Imperatriz cruel, mas companheira, como desejo a saudade de te amar, o adiar do reencontro. Tudo inevitável.

E porque é de noite. É uma magnífica razão para me encontrar comigo sob a luz da lua. Romanesco como só o ódio pode ser. Perfeitamente fútil até ao subtil de existir, e rebentar por isso. Porque é muito tarde para fingir dormir. Ou pelo contrário é muito cedo para sequer acordar.

 

 

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