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Hoje vi um mendigo ! Invadi o seu espaço, segurei-lhe a mão, sacudi-lhe o bolor do chapéu, pude cheirá-lo (talvez a maneira mais genuína de realmente ver um mendigo). Bem, tanto para dizer que aprendi um passe-de-mão perceptível apenas agora, que o dia acabou, e as pontes são só pontes para outro lado e não casas de ninguém, nem abrigos para mágicos felizes.
Na configuração do Universo mais vasto, debaixo das estrelas infinitas e sob um tecto de satélites e radares, a um pequeno canto pequenino, um singelo homem, sem importância alguma para o telejornal da noite, fazia-me sorrir com as suas pequenas histórias acerca de coisas grandes e infinitamente importantes para a ordem do Mundo. A justiça, por exemplo, ou aquilo que é justo, a risível expressão da humanidade inteira, a mulher desmaquilhada, a besta anoréxica de sorriso objectivo, o carteirista empresário atrás de um balcão ou de um computador, o condutor simpático e cordial das nossas estradas, o arrumador de sonhos, versão actual de um guardador de rebanhos auto-móveis.
Esse homem, insignificante para o saldo matemático de quem soma em escudos ou em Euros ou em dólares ou em mortes, insignificante mas belo. Esse homem que, segurou a minha mão, nesse passe de dádiva, inteiro e justo. Bem, esse homem de gritantes nadas, encheu o meu canto curioso de multicolores vitrais de vida imensa e genuína. Por troco de dois cigarros, uma atenção pequena e resistência ao cheiro nascido da indiferença.

