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himmelO paradoxo da loucura é efectivamente já não ter medo de mim.

Não ter de me assustar quando olho para dentro.

 

Poder contemplar os meus próprios ossos, sem medo que a alma os leve a passear.

Lá longe, no País de destino que ele escolheu para o acolher, existe um claro-escuro que espera pelo homem. Pela sua vida. Pelo seu tempo. Esta mulher estará sempre aqui entre as transfusões de sangue e a vida suspensa entre os dias acordados para o telefona preto. Para a chamada rápida. Para o vazio depois.

 

Hoje, aquela mulher morreu. Sei que este momento com o seu filho amado, esta alegria infinita ao seu coração, será o seu último momento de vida. Ela jamais o verá outra vez. Noutro instante voltaremos sobre nós o sorriso dentro do copo.

Olho para a mulher. Dentro dos olhos encovados pela doença existe uma luz anémica, baça, infeliz, de infelicidade. Penso agora que a sua doença era, em larga medida, justificada pela dor nascida da tristeza de quem já não espera. Hoje, felizmente o seu aspecto é melhor. O seu sangue peculiar afogueia-lhe as faces. Na janela dos seus olhos mora agora uma ânsia breve, uma transfusão de vontade que nasceu  da transfusão física. Líquida. Densa. Quente.

 

É tão bela assim. Translucidamente bela. Entrei no quarto apercebendo a alegria tangível no ar, lá dentro respirava-se vontade de viver e, uma vida inteira transpirada nos lençóis tristes ( não há lençóis alegres nos hospitais. Nem mesmo aqueles que transpiram partos e repousam velhos e adormecem sonhos. Nem mesmo…) não poderiam nunca esconder todo aquele sentimento de existir completa.

 

O seu filho emigrado estava sentado ao lado da cama segurando a sua mão. No braço ostentava  um pequeno penso, marcando a devolução de uma ínfima parte do seu sangue. Alto, mesmo sentado era como se estivesse de pé, este filho inteiro, nascido carne da sua carne, mesmo ali, do outro lado da janela, atravessando o pátio e chegando ao pé do muro, entrar… Mas estava ali, inteiro, já disse, 6.7 litros de sangue, recipiente e alma.

 

Sentados dentro de um copo repousam num sorriso puro os dentes daquela mulher. Inteira agora. Um pouco mais saudável. Um infinito mais feliz e completa.

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