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Lá longe, no País de destino que ele escolheu para o acolher, existe um claro-escuro que espera pelo homem. Pela sua vida. Pelo seu tempo. Esta mulher estará sempre aqui entre as transfusões de sangue e a vida suspensa entre os dias acordados para o telefona preto. Para a chamada rápida. Para o vazio depois.

 

Hoje, aquela mulher morreu. Sei que este momento com o seu filho amado, esta alegria infinita ao seu coração, será o seu último momento de vida. Ela jamais o verá outra vez. Noutro instante voltaremos sobre nós o sorriso dentro do copo.

A palavra certa, a expressão risível da nossa própria felicidade. – Vem! Canta em mim o sonho de te ver chegar, saco pronto, sorriso azul, chapéu de anjo colorindo o Céu. Ajuda-me a gritar Mary Poppins voltou ! Alto, bem alto – Super-anda-ri-e-troca-o-passo. Na cidade de luz há gárgulas pretas, mas aqui,  por te ver chegar, rirei com todas as gárgulas de mim até estoirar no tecto, servindo chá de doçura duvidosa em maneiras finas. Com amor. Com tempo. Com um bule rasgado pela chaminé dos meus sonhos. Até à exaustão de ser eu próprio.

Uma das palavras que mais me aproxima ao Eu que vive cá dentro, àquele pedaço de mim próprio que assenta em fundações que eu juraria não ter, que disfarçaria a todo o custo, não fosse o vento entrar e derrubar os cristais das prateleiras, essa palavra é a palavra TERNURA.

 

Recordo-a de um  filme que vi à muitos anos. Ultrapassava a centena de minutos de coisa nenhuma, de texto vazio e inenarrável representação.

 

Era Sábado à noite, muito noite já, e por não haver nada mais para ver àquela hora, lá fui resistindo ao ir dormir sem ter sono e não ter podido sair porque a idade o não permitia, enfrascando todos os decilitros daquele vinho mau, a que a imagem, a acção e o som não ajudavam. Quase a desistir do gesto magno e adolescente de ficar acordado até ao fim da emissão, vi entrar pelo écran uma imagem que guardo até hoje,  arrancada de uma multidão de frames, um momento de pureza,  simplicidade e também  surpresa. Como se toda a pobreza do filme tivesse conspirado num gesto para fazer brotar à luz aquela cena.

 

Um homem. Uma velha roullote de circo. Uma mulher. – Queres que me ponha em que posição… de frente, ou preferes de quatro ? – Queres que te faça um…? Em silêncio. Eu recordo-o sempre em silêncio. Pegou-lhe na mão e conduziu-a à sua cama ali ao lado, numa roullote é tudo ali ao lado, deitou-a e deitou-se, repousando a sua mão sobre o seu seio e aninhando-se em silêncio, no canto dela, no seu canto, imóvel, fazendo amor com ela numa posição chamada ternura.

Ao rever o filme tranquilizei-me por, de novo, me encontrar  numa poesia  subversiva e teimosa de escapar ao inevitável. O que sinto agora já não se resume a admiração ou esperança, há também um magnifico sorriso de saber o fim, como se Deus resolvesse mais cedo premiar os pequenos gestos conseguidos. Um sorriso largo arrancado à escuridão.

 

Sei. Na maré que nos devolve à mesma praia repousa a onda que nos traz à liberdade.

Estou sentado na mesmíssima posição dos teus sonhos. Posso ainda respirar o mesmo ar de ontem, porque a floresta ainda não mudou. Está apenas mais tímida. Apenas mais pequena. Daqui até onde consigo avistar, sorrio triste à curva do teu rio e às correntes mais verdes, de águas mais fundas.

 

Eu sei que este sonho é estranho, não porque me sonhes em ti, mas porque acordas sempre antes que eu me possa exprimir por palavras, antes que eu me possa levantar perante ti. Contudo eu compreendo que talvez o sonho seja apenas isto. Essa árvore ligeiramente soerguida sobre a floresta, onde me encosto, a curva do teu rio de correntes fundas e, por desafio, as margens, essas que mudam cada dia.

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