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Criança
Que estás em mim,
Deixa-me sozinho
Comigo e com as cores que represento.
Afasta
De mim a tua luz urgente.
Deixa-me arrastar os meus passos,
Demorar-me nas covas mais fechadas,
Atrasar-me para jantar, ouvir
O traço da vida que ultrapassa;
Sentir-me inútil.
Criança, deixa-me cair sem que te veja olhar,
Sem o ruído que fica
Parado à escuta de mim. Quero estar só !
Ter pena de mim próprio.
Ser feliz.
Daqui e até onde se avista, as artérias desta cidade parecem, isso mesmo, artérias. Levando o sangue purificado a cada uma das células que sofregamente o espera.
Organizados em correntes, os automóveis cortam através da terra como se um corpo de mulher os ansiasse.
Nervosos, mas quase sempre previsíveis, desafiam o sangue que os move e vêem-se como se deuses, observando de dentro, os quartos esquartejados de luz, a dor contida, a aspereza das paredes dilatadas, a overdose de silêncio quando o dia nasce.
Daqui e até onde se avista, nós sabemos que as artérias desta cidade são veias.
O sangue…, o sangue é venoso, mas ninguém se importará até que o coração pare.

