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Aqui, quase a chegar, a meio caminho entre o ponto de partida de toda a gente e a obscura loucura de alguns: Aqui!!!
Pena que o sol, que brilha para todos, não possa iluminar melhor os hospícios e sanatórios das nossas cidades fortificadas, lá, onde despejamos por esquizofrenia colectiva aqueles que vêem o seu mundo de maneira pessoal, sem receio que a língua que falam seja silenciosa aos nossos olhos. Aqui, quase a chegar, somos achados como que por sorte ao sol. Por milagre-sorte, apenas do lado de fora.
Naquele instante, inconveniente e ridículo, o médico parafraseou-se em voz alta, quase gritando, exclamou: “Só é tua a loucura onde, com lucidez, te reconheças”.
Por luar de charco de estrelas,
Eis a manhã !…
O tempo aberto de construir o dia.
Por luar de charco d` alegria…
Imagem…
Dos olhos de quem vê
E espera ainda…
A minha opinião pessoal acerca da metafísica tropeçou em mim tal qual uma evidência Pessoana não tropeçaria, na ideia que possam fazer dela. O gerúndio apocalíptico do verbo Ver saturou-me os olhos, como um mau champôo durante o banho, talvez como um mau banho. A evidência mais comum tornou-se na cegueira congénita dos meus tomates, na sua capacidade autárcita para pensar impulsivamente sobre os dilemas da vida, como se apelassem discretos a uma metafísica de vão-de-escada !
Sei hoje que, se Camões fosse vivo, não piscaria o olho sano a um perdigão fêmea e sem penas. Sem pena. Quando finalmente for velho e todo o mal se chegar, haja a clarividência da ilusão e, pelo menos, uma comichão tremenda na senilidade. Há que estar vivo ! Isso é metafísica!
Hoje vi um mendigo ! Invadi o seu espaço, segurei-lhe a mão, sacudi-lhe o bolor do chapéu, pude cheirá-lo (talvez a maneira mais genuína de realmente ver um mendigo). Bem, tanto para dizer que aprendi um passe-de-mão perceptível apenas agora, que o dia acabou, e as pontes são só pontes para outro lado e não casas de ninguém, nem abrigos para mágicos felizes.
Na configuração do Universo mais vasto, debaixo das estrelas infinitas e sob um tecto de satélites e radares, a um pequeno canto pequenino, um singelo homem, sem importância alguma para o telejornal da noite, fazia-me sorrir com as suas pequenas histórias acerca de coisas grandes e infinitamente importantes para a ordem do Mundo. A justiça, por exemplo, ou aquilo que é justo, a risível expressão da humanidade inteira, a mulher desmaquilhada, a besta anoréxica de sorriso objectivo, o carteirista empresário atrás de um balcão ou de um computador, o condutor simpático e cordial das nossas estradas, o arrumador de sonhos, versão actual de um guardador de rebanhos auto-móveis.
Esse homem, insignificante para o saldo matemático de quem soma em escudos ou em Euros ou em dólares ou em mortes, insignificante mas belo. Esse homem que, segurou a minha mão, nesse passe de dádiva, inteiro e justo. Bem, esse homem de gritantes nadas, encheu o meu canto curioso de multicolores vitrais de vida imensa e genuína. Por troco de dois cigarros, uma atenção pequena e resistência ao cheiro nascido da indiferença.

