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Uma dissertação acerca do riso, o meu. O meu magnífico riso de cristal importado. De mil gerações antes de mim. De poetas verdadeiros ainda que mortos. De alguns poemas e um par de mãos cheias de sal que me foram deixadas pelo mar. Em nome da verdade de quem sempre lá esteve. Em marés.
A verdade. A hilariante verdade é a de que aquele saxofone descreve dolorosamente o meu riso. Não aquele que se vê em cada dia, amarelo da idade, mas o riso imperceptível à mão que empunho para escrever, ou a ambas quando me sinto mais perto.
Mon Coeur S`Ouvre a ta Voix. Vejo Sansão sucumbir à canção enfeitiçada. Callas ressuscita Dalila dentro do avesso de mim. O meu coração transfigura-se na sua voz, rendendo-me, de uma vez só, à sua alma maldita e dentro dela ao seu grito. O meu cabelo será cortado, os meus olhos tomados, a minha vida perdida entre as colunas do templo. Mas quantos de vós, debaixo do sol, ouvistes esta canção? – Vivida a ternura para quê sonhar!? Acordada a voz, para quê dormir ?
A ponte ficou deserta. Em verdade, em verdade vos digo que nada há, na outra margem, que vos apraze ver. Quem, no seu juízo perfeito, fugiria do magnífico bulício que temos aqui. É feriado. Adoro a cidade aos dias feriados. Andar de automóvel com todos os semáforos intermitentes e as ruas desertas. A azáfama dos pássaros e as corridas loucas das folhas atrás do vento. Os cães a sorrir em pulgas com o parque inteiro só para si. Os velhos às portas como nas aldeias de outrora.
Parar o carro. Escutar só. É bom decompor a luz, quando nós não estamos. Parece, pelo meu prisma que ainda utilmente terá sobrado algo dessa última festa, aquela em que Deus sentou à mesa toda a criação e esta, com o melhor das suas boas maneiras, se banqueteou das melhores iguarias.
A minha opinião pessoal acerca da metafísica tropeçou em mim tal qual uma evidência Pessoana não tropeçaria, na ideia que possam fazer dela. O gerúndio apocalíptico do verbo Ver saturou-me os olhos, como um mau champôo durante o banho, talvez como um mau banho. A evidência mais comum tornou-se na cegueira congénita dos meus tomates, na sua capacidade autárcita para pensar impulsivamente sobre os dilemas da vida, como se apelassem discretos a uma metafísica de vão-de-escada !
Sei hoje que, se Camões fosse vivo, não piscaria o olho sano a um perdigão fêmea e sem penas. Sem pena. Quando finalmente for velho e todo o mal se chegar, haja a clarividência da ilusão e, pelo menos, uma comichão tremenda na senilidade. Há que estar vivo ! Isso é metafísica!
Uma das palavras que mais me aproxima ao Eu que vive cá dentro, àquele pedaço de mim próprio que assenta em fundações que eu juraria não ter, que disfarçaria a todo o custo, não fosse o vento entrar e derrubar os cristais das prateleiras, essa palavra é a palavra TERNURA.
Recordo-a de um filme que vi à muitos anos. Ultrapassava a centena de minutos de coisa nenhuma, de texto vazio e inenarrável representação.
Era Sábado à noite, muito noite já, e por não haver nada mais para ver àquela hora, lá fui resistindo ao ir dormir sem ter sono e não ter podido sair porque a idade o não permitia, enfrascando todos os decilitros daquele vinho mau, a que a imagem, a acção e o som não ajudavam. Quase a desistir do gesto magno e adolescente de ficar acordado até ao fim da emissão, vi entrar pelo écran uma imagem que guardo até hoje, arrancada de uma multidão de frames, um momento de pureza, simplicidade e também surpresa. Como se toda a pobreza do filme tivesse conspirado num gesto para fazer brotar à luz aquela cena.
Um homem. Uma velha roullote de circo. Uma mulher. – Queres que me ponha em que posição… de frente, ou preferes de quatro ? – Queres que te faça um…? Em silêncio. Eu recordo-o sempre em silêncio. Pegou-lhe na mão e conduziu-a à sua cama ali ao lado, numa roullote é tudo ali ao lado, deitou-a e deitou-se, repousando a sua mão sobre o seu seio e aninhando-se em silêncio, no canto dela, no seu canto, imóvel, fazendo amor com ela numa posição chamada ternura.
Sento-me, olhos fechados, ao piano. Seja um fim de tarde como este agora. Sinto-o chegar, ainda não mexo um músculo e sei que ele já ali está. Cerimonioso Chopin alonga-se na outra ponta do banco entireiçando-se felinamente no seu traje preto, à espera, Nocturno.
Começo. Tão devagar quanto a concentração me permite, quase a medo de tocar as teclas, depois crescendo, inteiro por dentro, pendurado nos dedos. Sinto a luz filtrada, atrás de mim, também atenta, não fosse esta a sua hora de dormir. Sinto um resumir de cores numa implusão cromática, sinto o gato a ronronar de prazer.
Abro os olhos num frémito e, por um instante, julgo vê-lo sorrir melancólico, breve. Parei. Descubro que parei porque o bichano saltou para o chão e foge já para a cozinha, mais presente, mais real, célere.

